Cara, se eu fosse me revoltar com tudo de errado que presencio no mundo, neste país, nesta cidade, neste local. Qual?
O bairro dos esquecidos. Aqui ninguém vale nada, ninguém é nada, e ninguém tem nada. Absolta nada! Não tem saúde, não tem alimentação, não tem moradia digna, aliás a dignidade a muito abandonou este local, creio que nunca esteve presente. A educação aqui é forjada na base da borrada. Além do que, até a violência, se isola com medo de nossas crianças. Soldados do tráfico, José ou só Zé, menino de doze anos, já matou uns dez homens, quem sabe foram onze. Que importa! Ele não é o mais perigoso do local, existem muitos Zés, de arma na mão, disposto a ser um tenente da facção, sonho juvenil crescer na vida do crime.
Violência se têm em abundância, parece que tudo está tranquilo, ninguém reparou os moradores que sumiram, se mudaram na calada da noite, não levaram, roupas ou móvel, nada. Quantos barracos, vazios!
Aqui tudo tem dono, um único dono. O terreno é invadido, loteado e vendido. Imposto, não se paga, paga-se mais, paga–se com o pouco que tem ou com a própria vida.
Divertido dia de datas comemorativas, a quadra sempre enfeitada com o tema a ser comemorado. Finge-se alegria e contentamento, com música horrível e brinquedos de baixo custo, é tudo muito rápido, nem deu tempo para aproveitar o churrasco. No natal não tem papai Noel que aguente, tantos pedidos que nunca serão atendidos. Ainda assim, há esperança no bairro que a morte parece presente, famílias lutam para que seus filhos não sejam corrompidos por ideais mentirosos que transformam gente em bicho, e bichos violentos. Não parece, não há opção ou se pega em armas e mata ou morre. Injusto realidade, porém é o dia-a-dia local. Para não passar fome, minguando na desnutrição, comercializa-se de tudo drogas, corpo e pessoas.
Todo o poder do estado, não vale nada neste local. Esquecidos filhos da pátria, cidadãos de terceira categoria, quem liga para essa gente, que não tem saúde para servir de empregado, educação ao nível de reivindicação, nem título de eleitor. Gente aglomerada que não serve para nada.